Natural e manual

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Tradicionalmente a arte se opõe à natureza. A natureza é a condição original, aquilo que não foi cultivado pelo homem e que existe independentemente da atividade humana, de qualquer artifício artístico.

A arte, por ser construção do homem, normalmente é entendida como oposta à condição original e primitiva dos elementos naturais. Aristóteles já havia afirmado que a arte imita a natureza. Tratava-se de perceber que a arte produz à maneira de, faz como, não apenas no sentido de reproduzir, representar as coisas ou imagens da natureza, mas o próprio processo inventivo da natureza, na possibilidade de uma semente se transformar em uma árvore.

O trabalho de Camille Kachani, como grande parte da tradição artística ocidental, cria coisas que a natureza não proporcionaria, mas que existe potencialmente nela. A madeira, material orgânico recorrente na produção do artista, possui uma carga afetiva. Para Kachani, é como se existisse algo de semelhante entre a natureza humana e esse material. Uma espécie de história primordial em comum. É como se o artista atualizasse uma possibilidade da madeira de se tornar outra coisa, uma mesa, um cabo de martelo ou uma maleta. Mesmo que as plantas que brotam em seus objetos sejam artificiais, não significa que as obras apenas imitam o exterior da natureza. Trata-se de uma aproximação tanto da potência inventiva da natureza quanto dos objetos da cultura. As gavetas e pés de mesa não são ready mades, são construídos pelas mãos de Kachani. Na verdade, não há diferença aparente entre aquilo que o artista se apropria e o que ele faz.

Os cabos são alongados como se estivessem vivos, crescendo nos próprios objetos espontaneamente e sem esforço. Entre as estratégias recorrentes de Kachani está a noção de colagem como justaposição de elementos contrastantes e complementares. As relações mais fundamentais se dão entre os elementos naturais e manuais, mas há uma série de outras relações mais prosaicas, como a de útil e inútil ou orgânico e inorgânico. O que se observa é que esses pares de opostos tendem a se transformar um no outro. A natureza se revela artificial e o material transformado, a madeira, natural.
De todo modo, o aspecto artesanal tende a se sobrepor ao industrial, ao feito em grande escala numa lógica impessoal de repetição. Além do processo de execução das peças ser manual, o presente conjunto de trabalhos de Kachani instigam o contato com as mãos do visitante. Há algo de sensível, de tátil em grande parte deles. Os objetos são originalmente feitos para a escala do corpo, particularmente para as mãos, como se estivessem fadados a serem tocados: foice, tesoura, enxada, escova, faca, cabos de utensílios domésticos ou puxadores.

Há ainda uma dimensão de sentidos nesses trabalhos ligada à memória subjetiva. A gaveta e as maletas são recipientes facilmente associados às lembranças, guardados e recordações. Entretanto, o fazer e a ação de executar o trabalho possuem algo de conceitual. Muitos dos instrumentos usados para construir o trabalho são também constituintes dele. Além de serem de fácil manuseio, a presença dos instrumentos parecem ser uma volta auto reflexiva do trabalho sobre si mesmo. É a obra que aborda seu próprio processo de construção ao se referir a objetos tão usados no ateliê como o martelo.
Há ainda uma série de outros trabalhos que se situam entre o equilíbrio e o desequilíbrio. São arranjos aparentemente instáveis, mas que possuem apoios firmes no chão, com três ou quatro pés, as peças se sustentam pela soma de instrumentos diversos. Elas parecem dançar uma musica sem qualquer coreografia. Uma escada improvável se ergue cambaleante a partir de instrumentos que se transformam em degraus e laterais. A peça, que não aguenta o peso de um humano, repele o toque do visitante também com a ameaça dos utensílios cortantes e pontiagudos que a formam. A ergonomia dos objetos feitos para a mão não se adequa plenamente à nova função que adquiriam. Há uma disjunção total entre a nova forma e sua função anterior. O que resta é um abismo entre o uso cotidiano dos objetos e a configuração da peça final.
Essa distância aparece de modo mais direto quando utensílios como copo, prato e talheres são divididos ao meio. Existe uma cisão que não separa completamente uma metade da outra porque as duas estão ali, próximas e aludindo a um todo. Há uma pequena divisão que, ao mesmo tempo, separa e une os objetos. É o hiato entre as duas metades de um martelo que sintetiza toda a mostra: a distância entre uma totalidade e a singularidade partida da arte. No trabalho de Camille Kachani, natureza x arte ou natural x manual, em vez de oposições, são unidades indissociáveis.

Cauê Alves