Sobre Invisíveis ou À Margem do Olhar

Vivemos, como é sabido, em tempos de excessos, com a aceleração, a saturação e outros superlativos ditando a tônica da existência atual. Um sentido de fugacidade perpassa a vida contemporânea, em boa medida acompanhando o movimento da lógica voraz instituída pela equação consumo-obsolescência que rege as relações sociais e econômicas. É sensível uma modificação crescente na relação que temos com a própria idéia de tempo, no sentido de tendermos a dele ter uma interpretação cada vez mais acelerada, compelidos a buscar cada vez mais o ‘instantâneo’.

A chamada cultura midiática prima pela multiplicidade de estímulos – notadamente visuais – com que bombardeia a sociedade, emitidos por uma miríade de veículos ou fontes díspares. O cenário é de fato o de um verdadeiro processo de iconicização exaustiva do mundo contemporâneo, no lastro da progressão vertiginosa das indústrias da imagem. Dessa forma, a experiência de conviver com o caos visual de uma grande cidade passa a impor ao indivíduo uma espécie de captação seletiva dos fatos do cotidiano, tolhendo ou ao menos filtrando os impulsos que se oferecem à contemplação, até pela impossibilidade de apreendê-los de todo. Num contexto assim, é quase natural que o cidadão urbano desenvolva uma tendência a certo amortecimento da percepção do cenário carregado de informações que o circunda.

E aqui se estabelece um paralelo imediato com a produção de Camille Kachani. Em sua recente série Invisíveis, o artista foca seu interesse exatamente sobre um repertório imagético que tende a escapar ou ficar à margem de nossa atenção: objetos e artefatos fortemente presentes no cotidiano metropolitano mas que não são “processados” visualmente pelo cidadão em trânsito. Carros usados, engradados de cerveja, caçambas de lixo, cones de sinalização: a única hierarquia de que esses itens prosaicos parecem dotados é uma da banalidade, que se auto-anula; daquilo que escapa ao olhar – ou aquilo que este deliberadamente evita – descartados em sua presença insignificante, silenciosa. Ao trazer tais elementos à baila, Kachani parece investi-los de uma dimensão afetiva que lhes é em princípio negada, repotencializando-os em alguma medida; e por extensão, fica implícita uma pulsão de reavaliar a relação do indivíduo com seu entorno, com tudo aquilo que, mesmo à margem do olhar, integra e conforma a experiência urbana. O cromatismo intenso e os materiais utilizados nesta série, como a pelúcia, estimulam essa leitura, gerando um jogo de contrastes evidenciado no apelo ao toque a que as composições parecem convidar, a despeito dos assuntos pouco atraentes que apresentam.

De um ponto de vista mais formal, as composições inevitavelmente aproximam-se, por sua temática, forte estilização e cromatismo exacerbado, desnaturalizado, de uma fisionomia pop. Essa leitura mostra-se no entanto complicada pela alta carga afetiva emanada dos trabalhos, seja pela carga simbólica da pelúcia como, sobretudo, pela empatia que se pode entrever do artista com os assuntos que elege, contrastando com a habitual frieza e impessoalidade características da vertente dos anos 1960. Demarcando essa incompatibilidade de filiação – de resto irrelevante ao que Invisíveis se propõe – a fatura de Kachani estaria mais para algo como um “pop povero”, uma variante personalista mais despojada e movida por outra esfera de inquietações.

De resto, há alguns aspectos que a meu ver chamam a atenção na práxis de Kachani, e que devem ser rapidamente comentados. O primeiro está no modo como o artista se mantém fiel, ao longo dos anos, a uma determinada gama de procedimentos, calcados na experimentação, num raciocínio compositivo rigoroso e num, digamos, “conceito expandido” de colagem – noção que pode ser facilmente constatada num olhar atento sobre o conjunto ora exposto e pode incorporar a justaposição, o colecionismo e a seriação, sempre a serviço da composição. O segundo – que apesar de indissociado do anterior assumo como um palpite cego meu – estaria no modo como os materiais, em sua diversidade (e Camille já usou uma vasta gama de materiais, freqüentemente inusitados) e um grau de encantamento que o artista não se furta a assumir parecem determinar os rumos de sua produção, sugerindo assuntos e séries temáticas.

Seja como for, ao fenômeno de estetização difusa e convulsiva em curso na contemporaneidade, ainda que de matizes intangíveis, Kachani parece contrapor uma possibilidade de investigar uma constituição mais efetiva dos mundos da vida, da realidade – mesmo que nem sempre nos apercebamos deste real.

Guy Amado – Agosto de 2007