Camille Kachani e a arte do estranhamento

Parece um passe de mágica, mas alguns livros caem em nossas mãos em momentos certos. Foi o que aconteceu quando “ensaiava” escrever esse texto para o artista Camille Kachani. Retirei de minha estante o “Olhos de madeira – nove reflexões sobre a distância”, do escritor italiano Carlo Ginzburg. Ao folheá-lo, observando minhas antigas anotações, já no primeiro capítulo, deparei-me com um título que me interessava para pensar sobre o que escreveria: “Estranhamento – Pré-história de um procedimento literário” que trata da “arte como procedimento” por meio das reflexões do escritor russo Viktor Chklovski, citado por Ginzburg, que por sua vez retirava de Tolstoi exemplos do que sugeria ser o “estranhamento” um sinônimo da arte.

A primeira vez que tive contato com a obra de Camille foi no Salão de Arte de Ribeirão Preto, em 2001, quando fiz parte do júri de seleção e fui surpreendido por um portfólio com imagens de objetos/esculturas no mínimo “estranhas”. Bichos taxidermizados com suas vísceras eletrônicas à mostra, como se fossem animais-robôs. E mais estranhamento me causaram quando da segunda etapa de seleção ficamos diretamente expostos aquelas esculturas que nos causavam certo desconforto tal a crueza do esgarçamento dos seus corpos inertes.

Depois, novo encontro no “Edital 2003”, no Museu de Arte Contemporânea de Campinas, com um trabalho que nada lembrava aquela experiência estético–cientifica, se é assim que podemos identificar os seus patos, galinhas e porcos robotizados.

Em Campinas, sem o humor e a ironia estranha dos trabalhos anteriores, era um artista mais comedido, com outra proposta plástica que apontava para uma pintura impressionista com raiz artística na pintura acadêmica do inicio de sua formação. No entanto, sem lidar unicamente com tintas e pincéis, comuns à essa linguagem, juntou materiais inusitados e, novamente, “estranhos” à construção de suas imagens, como teclados de computador ou copos plásticos cheios de cinzas em uma percepção imediata das coisas.

Neste trabalho, no entanto, não se percebe o mesmo estranhamento e sim um discurso político “estranho” embutido na figura de uma criança negra formada por milhares desses copos contendo café e leite em pó. A mistura desses pós é que dá as infinitas combinações cromáticas vistas nesta instalação que se esparramava pelo chão, como se fossem grãos pictóricos de uma fotografia aumentada.

Além deste trabalho, o artista apresentou trabalho “Kura”, de 2002, com o mesmo principio de construção pontilhista, só que no lugar da pincelada o que se vê são teclas de computador antigo, em várias tonalidades pastéis que variam do bege ao azul. A figura vista deste trabalho surge do fundo negro aos gritos, como se estivesse sentindo dor e faz lembrar o horror daquelas vistas nas pinturas do pintor inglês Francis Bacon. É de uma veracidade dramática e pictórica surpreendente. A figura, novamente como a da criança exposta com crueza, agora é de uma mulher desesperada que também expõe sua vísceras emocionais para o observador que se posta à sua frente.

“Tolstoi, influenciado pelas reflexões de Marco Aurélio, vias as convenções e instituições humanas com os olhos de um cavalo ou de uma criança: como fenômenos estranhos e opacos, vazios dos significados que lhes são geralmente atribuídos”. Ante seu olhar ao mesmo tempo apaixonado e distante, as coisas se revelam – para empregar as palavras de Marco Aurélio – “como realmente são”. As imagens de Camille também funcionam assim: quando nos aproximamos, por acaso ou por curiosidade, elas nos surpreendem ao revelarem do que realmente são feitas. São elaboradas de qualquer material que o artista encontra pela frente como flores secas, insetos, canudinhos de refrigerantes e cortes de jornal ou pedaços de caixas de remédio em um processo que começa na escolha de uma imagem sua ou apropriada. Depois são manipuladas no computador onde são trabalhadas graficamente em um processo de desmonte e suas estruturas pictóricas.

Como na fotografia, esta imagem será ampliada até que o que se via se transforme apenas em pontos de cor. São grandes colagens. O processo fica claro no trabalho intitulado “Gisele (Bundchen) em metalinguagem”, de 2003. Os pontos de cor, que neste caso são pedaços de filmes não revelados de várias tonalidades, transformam-se em imagem à medida que nos afastamos. O desenho ou os contornos não são perceptíveis quando estamos muito próximos. O que se vê nessa posição é um campo abstrato, como se estivéssemos diante de uma pintura pontilhista de Georges Seurat observada com lupa. O mesmo acontece com os demais trabalhos apresentados.

Mas nem sempre é o que prevalece: a escolha da matéria inusitada na composição destas “pinturas” não se dá em função da imagem retratada. E dessa forma surgem situações curiosas, como os retratos da boneca Emilia, ícone saído dos contos de Monteiro Lobato e transformada em estrela da televisão do horário infantil. A boneca surge em três versões e em todas há uma metáfora. Em uma delas, a imagem é construída de páginas daquelas revistinhas pornográficas de desenho grosseiro, muito populares entre a minha geração e a de meus pais, ao lidarem, eficazmente, com o imaginário erótico masculino. Não preciso ir além desse comentário para entendermos o estranho significado social e ético que envolve a criança hoje diante da inescrupulosa mídia televisiva com suas perversões sugeridas neste trabalho. Outra é feita de embalagens metalizadas de doces e preservativos. A terceira é feita de transistores e capacitores, componentes encontrados nos aparelhos eletrônicos e que se vêem em outros trabalhos do artista.

Camille Kachani combina referências de diversos artistas e movimentos da arte. Desde o já citado Seurat, passando pela “Pop Art”, Chuck Close e terminando em Vik Muniz ao fazer o caminho inverso deste artista no seu processo criativo, partindo de uma fotografia para a realização de suas estranhas colagens.

“O estranhamento”, nas palavras de Carlo Ginzburg, “é um meio para superar as aparências e alcançar uma compreensão mais profunda da realidade”.

Ricardo Resende
São Paulo, Outubro de 2003.